terça-feira, 8 de dezembro de 2009
recado
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
andar
a grama que cresce a casa pra fora,
o fundo do mar, da piscina,
as pedras portuguesas que te levam embora,
o tapete persa que conduz
aos lençóis onde voam os delírios,
e o meu peito,
se compreendem.
todos já foram encantados
por seus pés nús.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
sobre o fôlego
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
casos marítimos
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009
poema da filha caçula
e estes que falam são seres de tino.
mas vejam os olhos, vejam as sardas,
não seria ela própria, o mimo?
(scapin)
segunda-feira, 20 de julho de 2009
respingos
domingo, 19 de julho de 2009
queda livre
só se jogue do alto do prédio. se portar um bom pára-quedas. ou se lá em baixo é um breu. só se jogue do alto da torre. se tiver um bom controle. pra pousar no beijo meu. se jogue no lago. na armadilha. com alguém do lado. caia numa trilha. o tombo termina sempre em pedra ou em mar. se jogue num rastro. na cachoeira. pule do penhasco. eira nem beira. o tombo termina sempre em pedra ou em mar.
(scapin)
quinta-feira, 16 de julho de 2009
poema inabalável
conhecem sua pronúncia inabalável
e os caminhos inabaláveis do seu sorriso.
o seu sorriso remonta o seu sarcasmo.
ambos inabaláveis como seu rosto lindo.
eles não dependem da cor do céu.
mas sua concepção inabalável
que apóia os braços incertos
que assopra o chá que é quente
que conduz os sonhos na cama
que engole a saliva que é pura
esta sim!
será pra sempre inabalável!
até que por um suspiro totalmente inabalável
se abale
inabalavelmente.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
somtidos
Devo minhas composições a um amigo querido.
Quando resolvi comprar meu primeiro instrumento musical não sabia o que era nota, tom, ritmo, escala, acorde ou qualquer outra palavra que pudesse estar em um dicionário de música. O cavaquinho era o escolhido. Os chorinhos eram paixões de infância.
O instrumento musical nasceu do tamanho de um bebê.
As aulas começaram logo depois e a primeira grande surpresa estava no olhar do professor. De apenas 15% da visão periférica era o que seus olhos podiam se gabar. Quando não se vê, se ouve. E logo aprendi que os sons, assim como as pessoas, se combinam. As convenções estão lá, mas esbarram na abstração completa do som, tão avassalador quanto um sentimento. Os sons amam e os sons choram. E fugindo às regras os sons podem se apaixonar.
Meu professor me ensinou a enxergar o som. E só assim eu pude ouvir bem alto o rosto rosado de uma menina envergonhada, pude ouvir bem alto as cores sem fim de um vestido que samba, pude ouvir bem alto o desenho que o corpo faz no pano.
As palavras são vistas. A visão é dita. Os dizeres, ouvidos.
Quando meu professor não estava, tinha o amigo. Este me dizia que seu conhecimento realmente verdadeiro era saber o nome de todos os Rolling Stones e de pronunciar com perfeição as difíceis fonéticas de “world” e “massachussetts”. Falar palavras difíceis é como retirar sons difíceis de um instrumento.
Meu amigo cantava serestas durante a aula. Todas elas com cinco ou seis vezes a minha idade. Mas elas eram novas para meus ouvidos, e assim comecei a entender a poesia da música, a palavra que é som, o som que é palavra, e como cantar pode fazer bem para uma vida.
Hoje meu amigo se despediu dos dedos no cavaquinho. Sem choro. Ficaram seus risos que são sons, seus gestos que são sons, seus ideais que são sons, sua simplicidade que é som, sua generosidade que é som, seu cavalheirismo que é som e sua inteligência que é som. Meu amigo assim como todas as coisas que são inesquecíveis, hoje se transformou numa doce e presente melodia.
(scapin)
Homenagem ao Lary, amigo e meu primeiro professor de música que faleceu hoje (13/07/2009) em Goiânia.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
twittações
terça-feira, 16 de junho de 2009
lidia
o decote preto desviara a atenção.
domingo, 17 de maio de 2009
das manhãs
terça-feira, 12 de maio de 2009
cinco da tarde
sábado, 11 de abril de 2009
post-it
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
clave de ferro
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
as laranjas
Assim como meu pai, meus tios e meus primos, aprendi a descascar laranja com minha avó. O ritual sagrado da mesa do almoço tinha seu final com a chegada da grande bacia de laranjas. Doces, azedas ou as raríssimas seletas, carinhosamente chamadas por meu avô de pomos d’ouro. Junto com as laranjas vinham os pratinhos e as faquinhas. Tínhamos à nossa frente o necessário para a explicação de todas as coisas do mundo. E minha avó nos conduzia a essas descobertas.
A faca pontuda e afiada me dava a sensação e a responsabilidade de um adulto, a mesma que temos quando somos autorizados a escrever de caneta no colégio, deixando de lado o lápis com a tabuada em seu corpo. Minha avó sabia a tabuada de maneira elegante. Minha avó não me deixava ganhar partidas de xadrez. Era profundamente prazeroso receber xeques-mate com a elegância de minha avó. Todas as palavras estavam elegantemente combinadas para chegar até mim. Só minha avó descascava laranjas com aquela elegância.
Pega-se a laranja com uma mão. A faca com a outra. Sou canhoto. Logo invertíamos as funções de nossas mãos. A faca era colocada com as serras voltadas para o sentido contrário ao corpo. Roda-se mais a laranja e menos a faca. Sua casca sai num grande caracol gigante, que, claro, era quebrado em várias partes. Não por minha avó. Mas por todos os outros. Uma das primeiras lições que aprendi foi que ter sucesso com a laranja, retirando a casca por inteiro, era sinal de que já estava apto a casar. Casar ainda não era algo bem definido em minha cabeça. Na verdade nem sabia o que isso realmente poderia significar. E talvez até hoje não saiba. Retirar a casca por inteiro e sem feridas, essa sim a maior glória, era o desafio de sempre. Pouco me importava com a simpatia do casamento. E buscava cada vez menos feridas em minhas laranjas.
Com a laranja descascada vinha o grande dilema. O mesmo dilema que temos quando terminamos de construir, após uma tarde inteira debaixo do sol, o nosso próprio castelo de areia. Os castelos de areia, assim como as laranjas descascadas, não existem para terem vidas longas. E a maneira de retirar essa vida é de extrema importância. Assim, podíamos cortar a laranja com uma tampinha, duas tampinhas, com um bico, meio a meio, em gomos ou como a imaginação pudesse conceber em poucos segundos de reflexão.
Sempre destruí castelos de areia chutando-os.
Sempre gostei de cortar a laranja com uma tampinha. Chupa-se primeiro a tampa. Depois todo o corpo da laranja. A tampinha da laranja é como o primeiro beijo na menina do colégio. Dele saberemos o gosto que toda uma vida pode ter. Com ele tentamos evitar frustrações futuras. Ou alavancar as esperanças dentro do infinito feminino.
Com minha avó aprendi que não basta ser só homem. O homem precisa deste infinito que só a mulher possui. A mulher esconde toda a poesia do universo. Minha avó tinha apenas duas mãos, e todo o sentimento do mundo. Até hoje tento descascar laranjas como minha avó. Mas ainda preciso de um ponto de apoio. Minha avó descascava laranjas com a maestria de quem já retirara todas as cascas dos mistérios humanos.
(scapin)