terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

edredom

acordar pra te pensar
penso que acordei pra ver
vejo o que não tem falar
falo pra não entender
entendo o que vem com mel
e teu doce é bom demais
que chega assubêia, rir
rio pra me desaguar em você

acordar pra te brincar
brinco em cada traço teu
todos querem me pirar
piro pra não entender
entendo o que o olfato diz
e teu cheiro é bom demais
que chega assubêia, rir
rio pra me desaguar em você.

acordar pra te provar
provo de inferno e céu
nuvem pra nos explicar
fogo pra não entender
entendo o que a pele tem
e teu corpo é bom demais
que chega assubêia, rir
rio pra me desaguar em você.

(scapin)


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

cara nova

2010 demorou pra dar as caras por aqui. mas mesmo tardiamente veio com uma bela gravura do sempé. um dos meus desenhistas mais queridos. au revoir!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

sobre o vício

o que te alimenta?
tem quantas calorias?
vale por quantos dias?
o que te alimenta?

tem ferro, cálcio e cheiro?
se pega numa arvore?
ou se compra com dinheiro?

o que te alimenta?
o que te atormenta?
fome ou bucho cheio?

o que te alimenta?
o que te atormenta?
se torna seu recheio?

(scapin)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

recado

aos amigos que passam por aqui aviso que estarei rodando por ares europeus até o mês de março de 2010. para músicas e boas histórias. prometo continuar postando os poemas sempre que der.

AbraçOS

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

andar

os azulejos mais brancos,
a grama que cresce a casa pra fora,
o fundo do mar, da piscina,
as pedras portuguesas que te levam embora,
o tapete persa que conduz
aos lençóis onde voam os delírios,
e o meu peito,
se compreendem.
todos já foram encantados
por seus pés nús.


(scapin)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sobre o fôlego

hoje o mar se esqueceu de sair

e nada de verdade
e nada de mentira
e nada tem só cara
e nada no lugar

e nada tem um jeito
e nada com os braços
hoje não tem abraços
e nada no lugar

hoje o mar se esqueceu de sair

e nada de errado
e nada de correto
e nada só de um lado
e nada no lugar

e nada vale tudo
e nada de perfeito
viver é este feito
com nada no lugar.


(scapin)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

casos marítimos

estava eu dentro do mar.
e a moça na areia.

ela tinha a seus pés todos os grãos
que sonhavam ter a cor de sua pele.
o branco da areia.
apenas uma cópia barata de sua porcelana original.
o branco da areia.
de grande valia para acalmar o roxo da ausência.

gritava eu.
chamando a moça para entrar no mar.
e com passos lentos,
bem lentos,
a moça se permitiu.
se permitiu mas com um cuidado sincero.
recomenda-se entrar devagar no mar.
como pregam as avós.
os choques térmicos também possuem voltagem.

seu pai
quando a moça era menor do que já é,
desenhava com caneta bic
uma linha em sua perna.
aviso para que ela não se esquecesse que o mar
tem limite.
eu, menino esperto,
espero que o mar e o sal,
vençam o risco azul
na pele da moça.
aí sim.
pegá-la pela mão,
e por um capricho,
nos afogarmos,
no infinito de nossas peles.

(scapin)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

downloadFREE

olá amigos. além dos poemas que já venho colocando há 2 anos por aqui, agora as postagens também trarão notícias sobre meu novo álbum, os shows e coisas relacionadas à aventura musical e a sociedade dos poetas vivos!

a primeira notícia é que o disco "nunca converse com estranhos" já está disponível pra download. a proposta é que todas as pessoas tenham acesso às músicas do álbum. baixem! ouçam! e se gostarem divulguem! o link para o download ficará permanentemente aqui no blog.

« O disco Nunca Converse Com Estranhos surgiu após dois anos de intenso trabalho de composição e de concepção de arranjos e formas que as músicas deveriam ter. O nome veio de um poema que tinha escrito há alguns anos e que naquele momento e agora sintetiza uma avalanche de símbolos que gostaria de dar para este primeiro álbum da minha carreira como compositor. A estranheza do nome foi buscada em todo momento, na capa do disco, no projeto gráfico e nos vários penduricalhos e perfumarias sonoras que as pessoas encontrarão quando ouvirem as canções. Esta busca por uma sonoridade própria, sonho de todo músico, contou com talentosos parceiros que, em seus instrumentos e maneiras, colaboraram ativamente para este produto final. A eles eu devo sinceros agradecimentos. Desta maneira, após agradáveis dias em estúdio, chegamos neste mundo tão meu e tão sonhado, em que minhas músicas ganharam exatamente a cara com que as enxergava nos meus pensamentos atentos e utópicos. Uma música, durante seus minutos de duração, é responsável por tantas sensações que embevece o fato de poder causá-las. Por isso busquei neste disco e sempre tenho buscado em minhas músicas, as sensações mais completas e cheias de peculiaridades e detalhes possíveis. Tento dessa maneira me encontrar com todos os estranhos do mundo através delas. » Octávio Scapin

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

poema da filha caçula

andam falando que a moça é mimada
e estes que falam são seres de tino.
mas vejam os olhos, vejam as sardas,
não seria ela própria, o mimo?

(scapin)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

respingos

como é difícil separar dois líquidos.
pobres humanos.
que nasceram com o fardo
de serem quase que só água.

(scapin)

imunidade poética

prenda o poeta.
o verso é culpado.
prenda ao poeta enjaulado!

(scapin)

flerte

pisco o olho.
você sorri ao ler o que vi.
será que meus versos te namoram?

(scapin)

domingo, 19 de julho de 2009

queda livre

só se jogue do alto do prédio. se portar um bom pára-quedas. ou se lá em baixo é um breu. só se jogue do alto da torre. se tiver um bom controle. pra pousar no beijo meu. se jogue no lago. na armadilha. com alguém do lado. caia numa trilha. o tombo termina sempre em pedra ou em mar. se jogue num rastro. na cachoeira. pule do penhasco. eira nem beira. o tombo termina sempre em pedra ou em mar.

(scapin)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

poema inabalável

as palavras em francês
conhecem sua pronúncia inabalável
e os caminhos inabaláveis do seu sorriso.
o seu sorriso remonta o seu sarcasmo.
ambos inabaláveis como seu rosto lindo.
eles não dependem da cor do céu.
mas sua concepção inabalável
que apóia os braços incertos
que assopra o chá que é quente
que conduz os sonhos na cama
que engole a saliva que é pura
esta sim!
será pra sempre inabalável!
até que por um suspiro totalmente inabalável
se abale
inabalavelmente.

(scapin)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

somtidos

Devo minhas composições a um amigo querido.

Quando resolvi comprar meu primeiro instrumento musical não sabia o que era nota, tom, ritmo, escala, acorde ou qualquer outra palavra que pudesse estar em um dicionário de música. O cavaquinho era o escolhido. Os chorinhos eram paixões de infância.

O instrumento musical nasceu do tamanho de um bebê.

As aulas começaram logo depois e a primeira grande surpresa estava no olhar do professor. De apenas 15% da visão periférica era o que seus olhos podiam se gabar. Quando não se vê, se ouve. E logo aprendi que os sons, assim como as pessoas, se combinam. As convenções estão lá, mas esbarram na abstração completa do som, tão avassalador quanto um sentimento. Os sons amam e os sons choram. E fugindo às regras os sons podem se apaixonar.

Meu professor me ensinou a enxergar o som. E só assim eu pude ouvir bem alto o rosto rosado de uma menina envergonhada, pude ouvir bem alto as cores sem fim de um vestido que samba, pude ouvir bem alto o desenho que o corpo faz no pano.

As palavras são vistas. A visão é dita. Os dizeres, ouvidos.

Quando meu professor não estava, tinha o amigo. Este me dizia que seu conhecimento realmente verdadeiro era saber o nome de todos os Rolling Stones e de pronunciar com perfeição as difíceis fonéticas de “world” e “massachussetts”. Falar palavras difíceis é como retirar sons difíceis de um instrumento.

Meu amigo cantava serestas durante a aula. Todas elas com cinco ou seis vezes a minha idade. Mas elas eram novas para meus ouvidos, e assim comecei a entender a poesia da música, a palavra que é som, o som que é palavra, e como cantar pode fazer bem para uma vida.

Hoje meu amigo se despediu dos dedos no cavaquinho. Sem choro. Ficaram seus risos que são sons, seus gestos que são sons, seus ideais que são sons, sua simplicidade que é som, sua generosidade que é som, seu cavalheirismo que é som e sua inteligência que é som. Meu amigo assim como todas as coisas que são inesquecíveis, hoje se transformou numa doce e presente melodia.

(scapin)

Homenagem ao Lary, amigo e meu primeiro professor de música que faleceu hoje (13/07/2009) em Goiânia.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

twittações

o disco novo, os suspiros e os surtos agora no twitter.

quem quiser acompanhar fique à vontade: @octavioscapin

terça-feira, 16 de junho de 2009

lidia

o decote preto desviara a atenção.
mas no segundo olhar
a medalha de são jorge conseguiu aparecer entre os seios
e a pele impiedosa de uma mulher linda.

ela usava uma medalha de são jorge.
são jorge talvez seja o santo mais respeitado pelos ateus.
e ela estava vestida com as roupas e as armas de jorge.
para que seus inimigos tenham mãos e não lhe toquem.
para que seus inimigos tenham olhos e não lhe vejam.
e nem mesmo pensamento eles possam ter para lhe fazerem mal.
ela usava uma medalha de são jorge sobre sua pele impiedosa.
e tinha mãos para me embriagar com seu toque.
e tinha olhos intrépidos para ver meus olhos tenros.
e tinha olhos tenros para ver meus pensamentos proibidos.
e tinha o sorriso imaculado,
que promete todos os pecados da fêmea.
não se reverencia uma mulher como se faz com os santos.
não se ajoelha diante de uma mulher.
pega-se a lança.
deixa-se o medo.
derruba-se o dragão.

(scapin)

domingo, 17 de maio de 2009

das manhãs

as manhãs nascem
quando sua saia dança com seus joelhos 
e se jogam nos braços de minhas pernas. 
as manhãs dançam.

as manhãs não obedecem a natureza  
nem o curso das certezas. 
as manhãs nascem 
com ou sem o sol 
quando seu abraço se desarma.
as manhãs dançam.
e eu amanheço quando danço em você.
o meu corpo não é o seu corpo.
mas como explicar isso para o perfume das coisas? 
as manhãs têm o cheiro da conversa das peles. 
e os dias têm o cheiro das manhãs. 
não é a tarde nem a noite que dão vida aos dias. 
então como farão eles 
sem nossas manhãs 
para ensinar seus primeiros passos?

(scapin)

terça-feira, 12 de maio de 2009

cinco da tarde

não me pareceu simpático
o mar no primeiro encontro.
as amendoeiras
e suas amizades com as sombras
me cativaram primeiro.

por isso ganhei a atenção do mar.

o mar não conversa com quem o invade.
engole.
o mar faz prosa com os coqueiros
com as gaivotas serenas
com a areia que ele não toca
e conta piadas ao sol.
não serve-se água com açúcar
quando o mar está aflito.
sou da espécie dos rios.
no mar deságuo a razão
e termino
infinito.

(scapin)

sábado, 11 de abril de 2009

post-it

tudo o que quero agora
é um fim pra este verso.
mas quando o final me ignora
não termino. começo.

(scapin)