sábado, 11 de abril de 2009
post-it
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
clave de ferro
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
as laranjas
Assim como meu pai, meus tios e meus primos, aprendi a descascar laranja com minha avó. O ritual sagrado da mesa do almoço tinha seu final com a chegada da grande bacia de laranjas. Doces, azedas ou as raríssimas seletas, carinhosamente chamadas por meu avô de pomos d’ouro. Junto com as laranjas vinham os pratinhos e as faquinhas. Tínhamos à nossa frente o necessário para a explicação de todas as coisas do mundo. E minha avó nos conduzia a essas descobertas.
A faca pontuda e afiada me dava a sensação e a responsabilidade de um adulto, a mesma que temos quando somos autorizados a escrever de caneta no colégio, deixando de lado o lápis com a tabuada em seu corpo. Minha avó sabia a tabuada de maneira elegante. Minha avó não me deixava ganhar partidas de xadrez. Era profundamente prazeroso receber xeques-mate com a elegância de minha avó. Todas as palavras estavam elegantemente combinadas para chegar até mim. Só minha avó descascava laranjas com aquela elegância.
Pega-se a laranja com uma mão. A faca com a outra. Sou canhoto. Logo invertíamos as funções de nossas mãos. A faca era colocada com as serras voltadas para o sentido contrário ao corpo. Roda-se mais a laranja e menos a faca. Sua casca sai num grande caracol gigante, que, claro, era quebrado em várias partes. Não por minha avó. Mas por todos os outros. Uma das primeiras lições que aprendi foi que ter sucesso com a laranja, retirando a casca por inteiro, era sinal de que já estava apto a casar. Casar ainda não era algo bem definido em minha cabeça. Na verdade nem sabia o que isso realmente poderia significar. E talvez até hoje não saiba. Retirar a casca por inteiro e sem feridas, essa sim a maior glória, era o desafio de sempre. Pouco me importava com a simpatia do casamento. E buscava cada vez menos feridas em minhas laranjas.
Com a laranja descascada vinha o grande dilema. O mesmo dilema que temos quando terminamos de construir, após uma tarde inteira debaixo do sol, o nosso próprio castelo de areia. Os castelos de areia, assim como as laranjas descascadas, não existem para terem vidas longas. E a maneira de retirar essa vida é de extrema importância. Assim, podíamos cortar a laranja com uma tampinha, duas tampinhas, com um bico, meio a meio, em gomos ou como a imaginação pudesse conceber em poucos segundos de reflexão.
Sempre destruí castelos de areia chutando-os.
Sempre gostei de cortar a laranja com uma tampinha. Chupa-se primeiro a tampa. Depois todo o corpo da laranja. A tampinha da laranja é como o primeiro beijo na menina do colégio. Dele saberemos o gosto que toda uma vida pode ter. Com ele tentamos evitar frustrações futuras. Ou alavancar as esperanças dentro do infinito feminino.
Com minha avó aprendi que não basta ser só homem. O homem precisa deste infinito que só a mulher possui. A mulher esconde toda a poesia do universo. Minha avó tinha apenas duas mãos, e todo o sentimento do mundo. Até hoje tento descascar laranjas como minha avó. Mas ainda preciso de um ponto de apoio. Minha avó descascava laranjas com a maestria de quem já retirara todas as cascas dos mistérios humanos.
(scapin)
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
gravidade
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
sobre a lembrança
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
dois mil e nove
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
rascunhos
para esquentar os ouvidos
não hesite
rabisque meu corpo inteiro
não hesite
desenhos pontuais em meu pulso
não hesite
versos a caminhar pelos braços
não hesite
setas que lhe guiam para a nuca
não hesite
em apagar-me inteiro
com sua língua.
(scapin)
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
poema dos amores proibidos
e sobre esta cacofonia insossa
pousa o dever do disfarce
amo uma moça
mas não sei se posso amar
resolvi caminhar junto a moça
de pele tão clara de louça
daquelas que avó tem na estante
mas que ninguém pode usar
amo uma moça
mas não sei se posso amar
não tenho suas mãos que beijam minha face
não tenho o seu colo onde pousam os ouvidos
não tenho no abraço o desfile dos sentidos
não tenho seus olhares um minuto só que baste
amo uma moça
e sobre esta cacofonia insossa
pousa o dever do disfarce
amo uma moça
mas não sei se posso amar
não sorrimos juntos nas fotos
não andamos como os namorados
ainda que resistam sem foco
alguns carinhos velados
resolvi caminhar junto a moça
mesmo sem ter o seu rosto
no meu velho álbum de guardar
por isso estampo em sua capa
meu único pedaço da moça
a foto em que o pé dela ouve
o pé deste moço cantar
amo uma moça
e sobre esta cacofonia insossa
pousa o dever do disfarce
amo uma moça
mas não sei se posso amar.
(scapin)
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
sobre elisas
(scapin)
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
paisagem distante dos shoppings
dentro da imensidão da neve clara
lhes perguntei se era tudo verdade
a neve me abriu um sorriso
os lagos molharam as retinas
a natureza mostrou suas caras
as mais femininas
as mais selvagens
as mais raras
vivenciar a beleza impossível
é torná-la ainda mais bela
afogar-me os lagos
soterrar-me as neves
engolir-me a natureza
tornar-me ator no filme dela.
(scapin)
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
todo mundo vive
(scapin)
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
caixa de mensagens
na terceira vez que liguei para ela e não fui atendido, a angústia já se apresentava. muitas coisas já poderiam ser ditas. continuávamos naquela mesma sala. mas a sala diminuíra. ela já havia cruzado as pernas. e o vestido levemente caminhando por suas canelas, permitia o ouro de suas sandálias aparecer. para as meninas, sapatinhos de cristal. para as mulheres, sandálias de ouro. na terceira vez que liguei pra ela e não fui atendido, poderia ter-lhe perguntado de suas perplexidades. com a inocência de um desconhecido. com a fome insaciável de uma resposta que levaria a outra pergunta. já podia ver seu sorriso. e já podia desejar um sorriso maior, diante de uma bobeira que poderia ter lhe contado. na quarta vez que liguei pra ela e não fui atendido, já esperava o som que indicaria o caminho da caixa de mensagens. mas ela de tão próxima que estava, fazia com que a tormenta de não ter sido respondido, fosse confortada pelo deleite de seus traços, a pinta no rosto, os caminhos que os cabelos longos desenharam, após uma noite inteira dançando. ela estava tão perto como se os dois tivessem levantados e saídos da sala. na porta dos banheiros uma conversa rápida. um primeiro contato válido. um primeiro olhar. uma primeira risada. na quarta vez que não fui atendido por ela eu nem mais esperava. desliguei com a certeza de que ela tinha me encontrado. e vendo o tanto que estava perdido com todo o seu mistério e beleza, me perguntou se eu não queria uma carona de volta pra casa.
(scapin)
sábado, 25 de outubro de 2008
todo mundo é um mundo
(scapin)
domingo, 12 de outubro de 2008
ensaio sobre a dor
a mesa dói. os livros doem.
as músicas todas parecem chorar.
músicos e poetas nunca carregam lenços.
os lenços doem mais.
o telefone dói.
a cama dói e asfixia.
ainda estou vivo.
como é cruel estar vivo e doer.
a chuva que cai no telhado
e não sob a grama verde onde estão as margaridas.
as margaridas doem.
cada pétala a murchar de dor.
o pólen está morto
como as flores futuras.
o futuro é o que mais dói.
é por ele que doemos hoje.
a dor e a doação.
sem oração dói mais.
doer sem deus. amputar sem anestesia.
deixamos o amor doer para que ele seja grande pro resto dos dias.
(scapin)
sábado, 11 de outubro de 2008
todo mundo tem marca de vacina
(scapin)
domingo, 5 de outubro de 2008
sobre pés
enfiar os pés na grama
enfiar os pés na lama
e sujar
enfiar os pés na terra
descansá-los na janela
sem pensar
enfiar os pés em Deus
em paz pra sonhar
enfiar meus pés nos teus.
de manhã
enfiar os pés na água
enfiar os pés na tábua
e sumir
enfiar os pés na areia
sonho de toda sereia
sem pensar
enfiar os pés em Deus
em paz pra sonhar
enfiar meus pés nos teus.
(scapin)
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
para quem você daria um poema
para quem você daria um poema de saudade
para quem você daria um poema escondido
pra que quando fosse achado se tornasse uma verdade
para quem você daria um poema sorrateiro
para quem você daria um poema com defeito
para quem você daria um poema reto e curto
pra curtir o feito quente da sua frase de efeito
para quem você daria um poema, eu daria
dois poemas separados
um soneto pra mostrar meu romantismo
e um haicai pra beijá-la bem mais rápido
para quem você daria um poema de entrega
igualzinho o que eu sonhei que ela me entregasse um dia
sob todas essas luas eu pergunto para ela
eu já fui vários poetas, para quem você daria?
(scapin)
domingo, 7 de setembro de 2008
fotossíntese
solte no chão os pés e os cabelos
a natureza decretou você em mim
é o nosso beijo que trará
a chuva pro jardim.
(scapin)