terça-feira, 16 de junho de 2009

lidia

o decote preto desviara a atenção.
mas no segundo olhar
a medalha de são jorge conseguiu aparecer entre os seios
e a pele impiedosa de uma mulher linda.

ela usava uma medalha de são jorge.
são jorge talvez seja o santo mais respeitado pelos ateus.
e ela estava vestida com as roupas e as armas de jorge.
para que seus inimigos tenham mãos e não lhe toquem.
para que seus inimigos tenham olhos e não lhe vejam.
e nem mesmo pensamento eles possam ter para lhe fazerem mal.
ela usava uma medalha de são jorge sobre sua pele impiedosa.
e tinha mãos para me embriagar com seu toque.
e tinha olhos intrépidos para ver meus olhos tenros.
e tinha olhos tenros para ver meus pensamentos proibidos.
e tinha o sorriso imaculado,
que promete todos os pecados da fêmea.
não se reverencia uma mulher como se faz com os santos.
não se ajoelha diante de uma mulher.
pega-se a lança.
deixa-se o medo.
derruba-se o dragão.

(scapin)

domingo, 17 de maio de 2009

das manhãs

as manhãs nascem
quando sua saia dança com seus joelhos 
e se jogam nos braços de minhas pernas. 
as manhãs dançam.

as manhãs não obedecem a natureza  
nem o curso das certezas. 
as manhãs nascem 
com ou sem o sol 
quando seu abraço se desarma.
as manhãs dançam.
e eu amanheço quando danço em você.
o meu corpo não é o seu corpo.
mas como explicar isso para o perfume das coisas? 
as manhãs têm o cheiro da conversa das peles. 
e os dias têm o cheiro das manhãs. 
não é a tarde nem a noite que dão vida aos dias. 
então como farão eles 
sem nossas manhãs 
para ensinar seus primeiros passos?

(scapin)

terça-feira, 12 de maio de 2009

cinco da tarde

não me pareceu simpático
o mar no primeiro encontro.
as amendoeiras
e suas amizades com as sombras
me cativaram primeiro.

por isso ganhei a atenção do mar.

o mar não conversa com quem o invade.
engole.
o mar faz prosa com os coqueiros
com as gaivotas serenas
com a areia que ele não toca
e conta piadas ao sol.
não serve-se água com açúcar
quando o mar está aflito.
sou da espécie dos rios.
no mar deságuo a razão
e termino
infinito.

(scapin)

sábado, 11 de abril de 2009

post-it

tudo o que quero agora
é um fim pra este verso.
mas quando o final me ignora
não termino. começo.

(scapin)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

clave de ferro

todas as músicas
esperam seu gole
no meu copo de vinho.
o músico espera.
sempre apresenta sua obra
antes de sua manobra.
e tarda.
as estrelas morrem
por esse tardar.
olha-se para o céu
e só basta meio samba
para a estrela estar nos braços
de outra dimensão.
todas as músicas 
esperam seu gole
no meu copo de vinho.
até me embriagar
e sujar minha camisa,
sozinho.

(scapin)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

as laranjas

Assim como meu pai, meus tios e meus primos, aprendi a descascar laranja com minha avó. O ritual sagrado da mesa do almoço tinha seu final com a chegada da grande bacia de laranjas. Doces, azedas ou as raríssimas seletas, carinhosamente chamadas por meu avô de pomos d’ouro. Junto com as laranjas vinham os pratinhos e as faquinhas. Tínhamos à nossa frente o necessário para a explicação de todas as coisas do mundo. E minha avó nos conduzia a essas descobertas.

A faca pontuda e afiada me dava a sensação e a responsabilidade de um adulto, a mesma que temos quando somos autorizados a escrever de caneta no colégio, deixando de lado o lápis com a tabuada em seu corpo. Minha avó sabia a tabuada de maneira elegante. Minha avó não me deixava ganhar partidas de xadrez. Era profundamente prazeroso receber xeques-mate com a elegância de minha avó. Todas as palavras estavam elegantemente combinadas para chegar até mim. Só minha avó descascava laranjas com aquela elegância.

Pega-se a laranja com uma mão. A faca com a outra. Sou canhoto. Logo invertíamos as funções de nossas mãos. A faca era colocada com as serras voltadas para o sentido contrário ao corpo. Roda-se mais a laranja e menos a faca. Sua casca sai num grande caracol gigante, que, claro, era quebrado em várias partes. Não por minha avó. Mas por todos os outros. Uma das primeiras lições que aprendi foi que ter sucesso com a laranja, retirando a casca por inteiro, era sinal de que já estava apto a casar. Casar ainda não era algo bem definido em minha cabeça. Na verdade nem sabia o que isso realmente poderia significar. E talvez até hoje não saiba. Retirar a casca por inteiro e sem feridas, essa sim a maior glória, era o desafio de sempre. Pouco me importava com a simpatia do casamento. E buscava cada vez menos feridas em minhas laranjas.

Com a laranja descascada vinha o grande dilema. O mesmo dilema que temos quando terminamos de construir, após uma tarde inteira debaixo do sol, o nosso próprio castelo de areia. Os castelos de areia, assim como as laranjas descascadas, não existem para terem vidas longas. E a maneira de retirar essa vida é de extrema importância. Assim, podíamos cortar a laranja com uma tampinha, duas tampinhas, com um bico, meio a meio, em gomos ou como a imaginação pudesse conceber em poucos segundos de reflexão.

Sempre destruí castelos de areia chutando-os.

Sempre gostei de cortar a laranja com uma tampinha. Chupa-se primeiro a tampa. Depois todo o corpo da laranja. A tampinha da laranja é como o primeiro beijo na menina do colégio. Dele saberemos o gosto que toda uma vida pode ter. Com ele tentamos evitar frustrações futuras. Ou alavancar as esperanças dentro do infinito feminino.

Com minha avó aprendi que não basta ser só homem. O homem precisa deste infinito que só a mulher possui. A mulher esconde toda a poesia do universo. Minha avó tinha apenas duas mãos, e todo o sentimento do mundo. Até hoje tento descascar laranjas como minha avó. Mas ainda preciso de um ponto de apoio. Minha avó descascava laranjas com a maestria de quem já retirara todas as cascas dos mistérios humanos.

(scapin)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

gravidade

o sol conhece bem
as moças de pele morena
mas uma moça pequena
fez brilhar os olhos solares
e o sol egoísta encantado
quis aquela visão só pra ele
a moça pequena tão leve
viu a terra gravitando ao seu redor 
sua pele não ficaria mais morena
seus cabelos voariam para os ares
e o sol enfim descansaria um pouco
do ofício de nos manter vivos.

(scapin)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

teoria das cordas

nós 
desaguar
eu
desatar 
nós

(scapin)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

opção aos motéis

namorada
pode ser lida
na morada.

(scapin)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

sobre a lembrança

as pegadas estão no meu corpo
gatas tigresas leoas 
que pisaram na areia
ou na terra molhada
as pegadas estão no meu corpo
e por serem da mesma espécie
as fêmeas não se diferenciam nas pegadas
as pegadas estão no meu corpo
e não são elas que te trazem
para meus olhos bêbados de vinho
as marcas da mulher que forma o homem
não estão na pele das pegadas
e sim
na pele dos carinhos.

(scapin)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

dois mil e nove

aos que rezaram no natal
aos que comeram o peru
aos que estouraram espumantes
aos que tomaram guaraná jesus
aos que guardaram três folhas de louro na carteira
aos que foram para ilhas particulares
aos que foram para a casa da sogra
aos que não perderam o especial do roberto carlos
aos que estouraram fogos
aos que beijaram a namorada à meia-noite
aos que transaram no mar
aos que pularam ondas
aos que lêem as coisas por aqui
um 2009 cheio de saúde, música e poesia.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

rascunhos

se a voz já está tão rouca
para esquentar os ouvidos
não hesite
rabisque meu corpo inteiro
não hesite
desenhos pontuais em meu pulso
não hesite
versos a caminhar pelos braços
não hesite
setas que lhe guiam para a nuca
não hesite
em apagar-me inteiro
com sua língua.


(scapin)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

poema dos amores proibidos

amo uma moça
e sobre esta cacofonia insossa
pousa o dever do disfarce
amo uma moça
mas não sei se posso amar
resolvi caminhar junto a moça
de pele tão clara de louça
daquelas que avó tem na estante
mas que ninguém pode usar
amo uma moça
mas não sei se posso amar
não tenho suas mãos que beijam minha face
não tenho o seu colo onde pousam os ouvidos
não tenho no abraço o desfile dos sentidos
não tenho seus olhares um minuto só que baste
amo uma moça
e sobre esta cacofonia insossa
pousa o dever do disfarce
amo uma moça
mas não sei se posso amar
não sorrimos juntos nas fotos
não andamos como os namorados
ainda que resistam sem foco
alguns carinhos velados
resolvi caminhar junto a moça
mesmo sem ter o seu rosto
no meu velho álbum de guardar
por isso estampo em sua capa
meu único pedaço da moça
a foto em que o pé dela ouve
o pé deste moço cantar
amo uma moça
e sobre esta cacofonia insossa
pousa o dever do disfarce
amo uma moça
mas não sei se posso amar.


(scapin)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

sobre elisas

a rotina de um sinaleiro ficando vermelho fora quebrada um dia com um olhar. estático. mas com a profundidade cortante que somente os olhares das grandes mulheres possuem. nos encontrávamos assim. a pontualidade canônica do organizador do trânsito caótico da capital, me lançava um olhar, dias amigável, dias terno, dias revelador, dias doce, dias provocativo, mas sempre daquela mulher que por timidez ou talvez punição, não me mostrava nada além dos olhos e da pele suave da face. não me mostrava o nariz talvez porque os olhos com o nariz já tornam o ser humano passível de identificação. não me mostrava a boca talvez porque esta, além de linda, traria as inquietações e as vontades mais íntimas do ser. não me mostrava os cabelos talvez tentando esconder um de seus traços mais femininos. nada adiantava a omissão. por sorte uma avenida importante da capital me fazia parar e por isso nossos olhares se cruzavam exatos um minuto e trinta e dois segundos sob o sol impiedoso com as latarias. uma eternidade para quem observa os carros que passam na rua ortogonal. um tempo ínfimo para quem está em estado de contemplação. elisa. assim seus olhos se apresentaram no quarto ou quinto encontro. graças trocadas, carinhos de graça, doce sonhar é pensar que você gosta de mim como eu de você. por quantos um minuto e trinta e dois segundos terei que esperar até que o sinaleiro pare de vez, o trânsito entre em completo caos, que eu a tome pelas mãos e as bocas peçam aos olhos que se calem?

(scapin)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

paisagem distante dos shoppings

quando vi os pequenos lagos verdes
dentro da imensidão da neve clara
lhes perguntei se era tudo verdade
a neve me abriu um sorriso
os lagos molharam as retinas
a natureza mostrou suas caras
as mais femininas
as mais selvagens
as mais raras
vivenciar a beleza impossível
é torná-la ainda mais bela
afogar-me os lagos
soterrar-me as neves
engolir-me a natureza
tornar-me ator no filme dela.


(scapin)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

todo mundo vive

todo mundo vive. fato facilmente constatado com a nossa respiração. se esta pára é porque não estamos mais vivendo. e por isso é tão importante respirar. se prendemos a respiração não morremos. apenas vamos perdendo os sentidos. mas não morremos. nem se quisermos. e assim todo mundo vive. quando não somos nós que prendemos nossa respiração podemos morrer. ou ficar apaixonados. é por isso que alguns morrem de paixão. sem registro em cartório. e como morrer de paixão é respirar como nunca, fecha-se assim nosso aparelho respiratório.

(scapin)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

caixa de mensagens

a primeira vez que liguei pra ela e não fui atendido foi confortante. no fundo não queria ouvir o alô que viria via satélite. o impulso de ligar é muito maior do que a própria razão da conversa. por isso liguei. na segunda vez que liguei pra ela e não fui atendido, as sensações mudaram. desta vez já havia me debatido com a idéia de que correra o risco de resposta na primeira tentativa. assim um diálogo inicial já começava a se formar na parte do meu cérebro destinado a isso. sempre ensaio diálogos. nunca sigo o roteiro. neste ponto eu já a via. as imagens já falavam bastante. como se estivéssemos sentados na mesma sala. um de frente pro outro. e a ligação ocorresse. na segunda ligação que não foi atendida, o martírio de esperar os sinais telefônicos era minimizado com a visualização ainda opaca de um vestido azul e suas formas. alças médias, colo exposto, decote discreto, convidativo para os neurônios escolhidos à dedo, para entender todas as nuances de uma linda mulher vestida. dizem que os homens despem as mulheres em seus pensamentos a todo instante. não sou diferente. mas antes disso passo por todas as instâncias do ato de se vestir. e a visto. peça por peça. botão por botão. como o escultor que de milímetro a milímetro veste sua estátua com um vestido de mármore.

na terceira vez que liguei para ela e não fui atendido, a angústia já se apresentava. muitas coisas já poderiam ser ditas. continuávamos naquela mesma sala. mas a sala diminuíra. ela já havia cruzado as pernas. e o vestido levemente caminhando por suas canelas, permitia o ouro de suas sandálias aparecer. para as meninas, sapatinhos de cristal. para as mulheres, sandálias de ouro. na terceira vez que liguei pra ela e não fui atendido, poderia ter-lhe perguntado de suas perplexidades. com a inocência de um desconhecido. com a fome insaciável de uma resposta que levaria a outra pergunta. já podia ver seu sorriso. e já podia desejar um sorriso maior, diante de uma bobeira que poderia ter lhe contado. na quarta vez que liguei pra ela e não fui atendido, já esperava o som que indicaria o caminho da caixa de mensagens. mas ela de tão próxima que estava, fazia com que a tormenta de não ter sido respondido, fosse confortada pelo deleite de seus traços, a pinta no rosto, os caminhos que os cabelos longos desenharam, após uma noite inteira dançando. ela estava tão perto como se os dois tivessem levantados e saídos da sala. na porta dos banheiros uma conversa rápida. um primeiro contato válido. um primeiro olhar. uma primeira risada. na quarta vez que não fui atendido por ela eu nem mais esperava. desliguei com a certeza de que ela tinha me encontrado. e vendo o tanto que estava perdido com todo o seu mistério e beleza, me perguntou se eu não queria uma carona de volta pra casa.

(scapin)

sábado, 25 de outubro de 2008

todo mundo é um mundo

barcelos é um executivo de sucesso e luta takendô. isabela me falou dos pormenores de seus nus artísticos. lana é ninfomaníaca e trabalha voluntariamente há dois anos em um abrigo para velhinhos. alberto joga futebol de botão profissionalmente e escreve poemas. carlos tem a gravação dos 15 minutos de silêncio pela morte de john lennon. ele a ouve diariamente. zé dá aulas de inglês para crianças infernais e estuda esperanto com um professor impaciente. jorge não sai de casa sem alimentar seus dezenove papagaios e por isso abre mão da sua hora de almoço. pereira já queimou cinco chuveiros por tomar banhos muito quentes. sara faz sexo com animais ortodoxamente. joana é retro mas gosta de trance. rafael só bebe uísque doze anos com energético quente. nádia já foi a trinta e cinco shows do bob dylan. emerson é gay. idemar é machista. cláudia é fissurada por jujubas amarelas. marcos é pastor e come a empregada. nara canta e quer salvar o mundo. mariana faz mergulhos em mares profundos mas não gosta de piscina com água gelada. cleide é viciada em atari desde o seis anos. andré é casado com uma harley davidson e a trai de vez em quando com moças loiras. todo infinito cabe dentro de um segundo. todo mundo, sem exceção, é um mundo.

(scapin)

domingo, 12 de outubro de 2008

ensaio sobre a dor

descobri que estou vivo.
a mesa dói. os livros doem.
as músicas todas parecem chorar.
músicos e poetas nunca carregam lenços.
os lenços doem mais.
o telefone dói.
a cama dói e asfixia.
ainda estou vivo.
como é cruel estar vivo e doer.
a chuva que cai no telhado
e não sob a grama verde onde estão as margaridas.
as margaridas doem.
cada pétala a murchar de dor.
o pólen está morto
como as flores futuras.
o futuro é o que mais dói.
é por ele que doemos hoje.
a dor e a doação.
sem oração dói mais.
doer sem deus. amputar sem anestesia.
deixamos o amor doer para que ele seja grande pro resto dos dias.


(scapin)

sábado, 11 de outubro de 2008

todo mundo tem marca de vacina

todo mundo tem marca de vacina. a que mais me chamou atenção até hoje foi sem dúvida a da minha prima. lembro-me especialmente dela. carinhosamente arredondada. que me fazia pensar que não era a conseqüência mas sim a causalidade artística do artifício médico. as marcas de vacina variam como as luas. mais abertas. mais fechadas. Com mais ou menos relevo. Mais ou menos nuas. todo mundo tem marca de vacina. mas a da minha prima era a mais bela. nem me lembro mais da dor que suportei para ter a minha. só que hoje tudo dói mais. ao perceber que não sou vacinado contra ela.

(scapin)